12/20/2025

De soberano a questionado: a percepção do torcedor do São Paulo de 2005 a 2025

By h79snht.top

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da esport bet: Há 20 anos, o São Paulo alcançava o topo do futebol mundial pela terceira vez. Em Yokohama, em 2005, o Tricolor venceu o Liverpool por 1 a 0 e consolidou de vez o rótulo de soberano, símbolo de um clube organizado, vencedor e temido internacionalmente. Duas décadas depois, o cenário é outro. O time em campo já não é o mesmo, a escassez de títulos de peso continental e mundial se prolonga, e os bastidores passaram a ocupar o centro do debate, marcados por crises políticas e instabilidade institucional. Nesse contexto, a forma como o torcedor enxerga o São Paulo também mudou. Para entender essa transformação de percepção ao longo do tempo, o Lance! ouviu representantes de três gerações de são-paulinos.

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Alexandre Gisbrecht, historiador do São Paulo e criador do projeto Anotações Tricolores, viveu intensamente o tricampeonato mundial e acompanhou todas as fases do clube desde então. Aos 49 anos, autor de quatro livros sobre a história do futebol, ele carrega uma relação que atravessa gerações: é pai, filho, neto e bisneto de são-paulinos. Sua visão une memória, contexto histórico e comparação direta entre o São Paulo dominante do passado e o clube que hoje luta para reencontrar estabilidade.

Pedro Augusto da Silva, de 28 anos, também guarda o Mundial de 2005 como um marco, ainda que o tenha vivido na infância. A lembrança daquele título moldou sua relação com o clube e serviu como referência de grandeza, mesmo em anos posteriores de menos conquistas.

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Completando o trio, Tiago, um torcedor de apenas 21 anos que não presenciou a era soberana. Para ele, o São Paulo vencedor existe por meio de vídeos, relatos e histórias contadas por gerações anteriores, enquanto a experiência prática é a de um clube distante do protagonismo internacional.

Juntos, esses relatos revelam como o tempo, os resultados e o contexto institucional transformaram o sentimento do torcedor. Mais do que nostalgia ou frustração, as três gerações ajudam a explicar como o São Paulo passou de referência mundial a um clube em busca de reconstrução, e como essa trajetória redefiniu a identidade e as expectativas de quem veste o vermelho, branco e preto.

continua após a publicidadeAlexandre Gisbrecht – que viu tudo

Para Alexandre Gisbrecht, historiador do São Paulo e autor de quatro livros sobre a história do futebol, a relação com o clube foi construída em um período no qual vencer fazia parte da rotina. Ele começou a acompanhar o Tricolor ainda criança, em meados dos anos 1980, quando os títulos eram frequentes e a sensação de protagonismo parecia permanente.

– Quando eu comecei a acompanhar o São Paulo, em 1986, o clube tinha acabado de ser campeão paulista e ainda seria campeão brasileiro naquele mesmo ano. Depois vieram mais Paulistas, Libertadores, Mundiais. A impressão era de que o São Paulo podia até ficar um tempo sem ganhar, mas nunca mais do que dois ou três anos – conta.

Alexandre tinha apenas 10 anos quando viu aquele ciclo vencedor se iniciar, e cresceu acompanhando conquistas constantes até meados da década de 1990. Mesmo nos momentos de transição, a percepção era de normalidade dentro de um clube acostumado a se reorganizar rapidamente.

– Até 1994, com Recopa e Copa Conmebol, ganhar era algo relativamente frequente. Depois vieram anos difíceis, mas sempre com a sensação de reconstrução. Em 98, ganhou de novo. Em 2000, também. Era como se o clube sempre encontrasse um caminho – relembra Alexandre.

– De repente, tudo parou. Para quem estava acostumado a ver o São Paulo campeão com certa regularidade, foi muito difícil. Isso foge completamente do padrão que a gente conhecia – completa.

Na comparação com gerações anteriores, Alexandre reconhece que o futebol sempre teve ciclos, mas aponta diferenças importantes no contexto recente.

– Meu pai ficou mais de dez anos sem ver o São Paulo campeão paulista. Mas ali coincidiu com fases muito fortes dos rivais. A partir de 2008, isso não aconteceu da mesma forma. Teve boa fase de um rival ou outro, mas daria para o São Paulo ter se recuperado. E não se recuperou – disse.

Para ele, as razões passam diretamente pela política interna do clube, por decisões equivocadas e por um modelo de gestão que deixou de acompanhar as transformações do futebol.

– O São Paulo não costumava errar tanto. Podia errar aqui ou ali, mas não acumulava dívidas gigantes. Pagava em dia, se adaptava às mudanças. Foi pioneiro na adaptação à Lei Pelé, foi um clube de vanguarda. Depois, se perdeu justamente nisso.

Alexandre também critica o sistema político do clube, especialmente a concentração de poder e a longevidade dos dirigentes.

– Houve um envelhecimento dos dirigentes e uma sensação de que o cargo era um direito adquirido. A mudança no estatuto ampliou mandatos e facilitou reeleições. Isso criou uma fila de pessoas que achavam que tinham o direito natural de comandar o clube – critica.

Na visão do historiador, esse processo impactou diretamente a identidade do São Paulo e a forma como o torcedor se relaciona com o clube hoje.

– Quem cresceu com o São Paulo dos anos 80 e 90 construiu sua percepção de futebol ali. O torcedor dessa geração não mudou. Já o torcedor mais jovem se formou com outras referências, passou muito tempo sem ganhar. Teve gente que foi celebrar um título só em 2021. É muito pouco para criar aquela sensação de grandeza contínua – conclui.

Pedro Augusto – que cresceu com o Soberano

Pedro Augusto viveu o tricampeonato mundial ainda criança, mas guarda memórias claras de um período em que o São Paulo parecia imponente até diante do desconhecido. Para ele, a percepção do Mundial mudou ao longo dos anos, muito em função do acesso à informação e da forma como o futebol europeu passou a ser consumido no Brasil.

– Hoje o Mundial é mais difícil, mas menos assustador do que era antes. Naquela época, a gente não tinha tanta informação sobre os clubes europeus. Pouca gente tinha TV por assinatura, não existia streaming, quase ninguém assistia à Premier League. Quando o São Paulo foi jogar contra o Liverpool, eu nunca tinha ouvido falar deles – resgata na memória.

Na memória de Pedro, o Liverpool era quase uma incógnita. As referências eram escassas e aumentavam a sensação de grandiosidade do desafio.

– A única coisa que a gente sabia é que eles estavam há muito tempo sem levar gol e que o Gerrard jogava pela seleção. Era isso. Para uma criança, aquilo parecia enorme. Hoje, com tanta informação, o Mundial acabou ficando meio esvaziado. Talvez porque a gente saiba que os europeus não levam tão a sério. Naquela época, o peso parecia maior – conta.

Com apenas oito anos, Pedro acompanhou de perto toda a campanha do São Paulo naquele ano histórico, inclusive os jogos anteriores ao Mundial. O Athletico, campeão brasileiro pouco tempo antes, simbolizava um obstáculo real.

– Eu fui em vários jogos daquela campanha, inclusive contra o River Plate, no Morumbi. Acompanhei tudo. E, curiosamente, o Athletico me assustava mais do que o Liverpool. Eu nunca tinha visto um brasileiro ganhar a Libertadores. Sou de 97, até tinha brasileiro campeão em 98 e 99, mas eu não lembrava. O São Paulo foi o primeiro que eu vi ganhar. Para mim, a Libertadores parecia algo quase impossível para um clube brasileiro.

– Ver o São Paulo chegar ao Mundial foi algo muito marcante. Na volta, eu fui até o aeroporto receber o time. Era criança, mas aquilo ficou muito marcado. Essa é a minha visão daquele período, de um São Paulo que parecia gigante e assustador para todo mundo, inclusive para a gente mesmo – relembra com nostalgia.

Tiago – que se contentou com a memória de tudo

Aos 21 anos, Tiago faz parte de uma geração que não viveu o São Paulo no auge, mas cresceu ouvindo histórias sobre um clube que dominou o mundo. Ele nasceu pouco antes do tricampeonato mundial de 2005 e construiu sua relação com o Tricolor a partir da memória e do contraste com a realidade atual.

– Quando eu nasci, pouco tempo depois o São Paulo foi campeão do mundo contra o Liverpool. O time de 2005 era muito sólido, bem treinado, eficiente. Talvez não tivesse o brilho do time dos anos 90, mas era extremamente competitivo. Tomava poucos gols, aproveitava as chances e não errava com a bola. O Rogério fechou o gol, os zagueiros eram muito fortes, e até o gol mostra como o time era bem treinado – conta.

Tiago reconhece o peso histórico daquele período, mesmo sem tê-lo vivido de perto, mas com um contraste nítido em sua fala.

– Depois vieram títulos importantes, como os três Brasileiros seguidos. Isso mostra o tamanho do São Paulo. A gente cresceu vendo más gestões, contratações ruins e um clube distante da grandeza que sempre ouviu falar. Isso dói, porque você conhece a história, mas vive um momento muito diferente. Mesmo na fase ruim, o clube ganhou títulos e segue gigante. A gente não vive só de troféu, vive do São Paulo Futebol Clube, da história, da camisa, do Morumbi e da torcida – completa.

Para Tiago, a fé e o peso da camisa seguem vivos. Mesmo em um contexto diferente, diz que eles “não vivem só de museu”, diferente do que rivais alegam.

– Dizem que a gente vive de museu, mas ninguém chegou lá ainda. O São Paulo é história, não só momento. E isso não pode se perder no torcedor – finaliza.

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